CRE debate com diretor da OMC as perspectivas comerciais na globalização

24 de ago - Relações Exteriores


Senadora Ana Amélia participou da audiência com a presença de Roberto Azevêdo

CRE debate com diretor da OMC as perspectivas comerciais na globalização

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, esteve na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) nesta quinta-feira (24) para debater as perspectivas comerciais no atual cenário globalizado. Azevêdo explicou que, desde 2008, a economia global não retomou o ritmo anterior. Para 2017, a OMC prevê uma melhora, mas a taxa de crescimento do PIB mundial não deve chegar a 3% pelo sexto ano consecutivo.

Questionado sobre como o Brasil pode se tornar mais dinâmico no comércio internacional, o dirigente da OMC afirmou que o país precisa investir mais na competitividade de seus produtos com valor agregado e facilitar a exportação por parte de pequenas e médias empresas brasileiras. 

A senadora Ana Amélia (PP-RS) participou da audiência e questionou o diretor da OMC sobre o acordo Mercosul/União Europeia. Azevêdo disse considerar uma negociação complexa, mas espera que seja assinado “o mais rápido possível”. O acordo entre os blocos é importante para eliminar barreiras e intensificar negócios em setores como o agro e a indústria.

CRE debate com diretor da OMC as perspectivas comerciais na globalização

Anti-globalização

Segundo Azevêdo, o crescimento de partidos nacionalistas em diversos países da Europa, a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos são alertas de um "forte e verdadeiro sentimento de exclusão" de parcelas da população no que se refere à globalização da economia.

- Há um temor, como se deu na Inglaterra, de que o que vem de fora vai retirar as oportunidades de crescimento e trabalho do morador local. Este sentimento também vem se manifestando em outros países, com partidos protecionistas ganhando mais espaço - disse.

"É preciso mudar"

Azevêdo revelou que este sentimento de não-pertencimento foi percebido nos Estados Unidos antes da eleição presidencial naquele país pelo então presidente Barack Obama, que num encontro com o brasileiro admitiu que "aqui as pessoas veem a globalização como algo que interessa de fato somente às grandes corporações".

Em contraponto a este sentimento, o diretor-geral da OMC avalia que tanto sua organização quanto as lideranças de cada país precisam priorizar estratégias inclusivas das pequenas e médias empresas nos novos acordos.

- Um obstáculo no comércio internacional que para uma grande empresa é apenas uma linha num acordo, pra uma pequena ou média pode inviabilizar sua inserção. Acho que agora nós temos que facilitar a vida das pequenas e médias, porque são as grandes provedoras de empregos, o potencial aí é enorme - aponta o diplomata, que vê inclusive no desenvolvimento tecnológico hoje um facilitador deste processo.

Brasil pode ganhar

Azevêdo chamou a atenção paro fato de que no Brasil por exemplo, 95% das exportações são realizadas por apenas 5% das empresas do país. Revelou que recentemente fez visitas de trabalho nos Estados Unidos à sede de grandes companhias de plataformas comercias, como o eBay, Google, Facebook e outras, quando foi apresentado a dados mostrando o que acontece com pequenas empresas que conseguem exportar.

- Essas tem uma taxa de sobrevivência e expansão infinitamente superior às que não participam do comércio internacional. O comércio internacional alavanca a potencialidade da pequena e média de uma maneira extraordinária, muito mais que o mercado doméstico - esclareceu o diplomata, mostrando que a priorização deste setor poderá beneficiar milhões de pessoas.

Além deste enfoque, Azevêdo afirmou que a OMC também busca aprofundar agora as negociações multilaterais em torno do comércio eletrônico, facilitação de investimentos e agricultura, "por mais difíceis e complexas que sejam estas conversas".

Disse também que a organização não cai no "falso dilema" entre negociações bilaterais, regionais ou multilaterais. Finalizando, alertou que 2017 muito provavelmente marcará o sexto ano seguido em que a taxa de crescimento comercial no mundo ficará abaixo de 3%.

- Isso é algo sem precedentes desde o pós 2ª Guerra Mundial. Vejo isso como um fenômeno muito preocupante, e um desafio aos líderes políticos globais - afirmou.

Diagnóstico

O diretor-geral anda apresentou um diagnóstico do impacto da adoção de tecnologias no desemprego gerado no mundo. Segundo ele, 80% das perdas de postos de trabalho nas economias avançadas são ligados à inovação tecnológica. A avaliação é de que este fenômeno tende a ser ainda mais forte nos países em desenvolvimento, como o Brasil, provocando crises estruturais de desemprego.

Azevêdo informou que apresentou estes estudos, todos baseados em dados oficiais dos próprios países, durante encontro do G-20 na China em outubro do ano passado. Ele prevê que o quadro pode se agravar em nações como o Brasil, devido ao despreparo técnico-científico de boa parcela da população.

— Este tema ainda não é percebido como uma prioridade na agenda do país, mas não tenho nenhuma dúvida de que em breve estará. Quanto menos preparada estiver a mão de obra, mais ela será afetada e substituída pelo processo de inovação tecnológica, mesmo que esta mão de obra seja barata — advertiu.

O diretor-geral da OMC, o segundo na história da organização a ser reeleito para um novo mandato de 4 anos (iniciando em setembro), informou também ter deixado claro durante o encontro do G-20 que a eliminação de postos de trabalho devido a processos de inovação tecnológica é "irreversível e continuará se aprofundando". Informou ainda que o órgão trabalha em um novo documento oficial a ser apresentado ao G-20, com sugestões de medidas aos líderes.

Educação

Azevêdo disse que este novo estudo da OMC deverá ser concluído em breve, e conclamou inclusive os senadores para que se atenham a ele.

A organização deixa claro que não existe uma espécie de "receita tópica" que possa servir a todas as nações, devido às peculiaridades sócio-culturais de cada uma, mas há desafios que serão comuns a todas para que não sofram com o desemprego estrutural.

— Empregos estão sendo criados em outras áreas mais avançadas, o problema é esta demanda não ser preenchida por falta de recursos humanos preparados. A solução não é fácil e passa necessariamente por um esforço de Estado, envolvendo inclusive estratégias de planejamento por décadas, além de horizontes eleitorais — afirmou.

Essa estratégia de Estado, disse Azevêdo, passa por uma reformulação dos modelos educacionais e sociais, passando também pelo retreinamento da força de trabalho. Segundo os levantamentos da OMC, 2/3 das crianças que ingressam hoje no ensino fundamental trabalharão em profissões que ainda não foram criadas.

— É necessário desenvolver um modelo educacional que prepare sua força de trabalho para uma indústria de serviços e de produção que não é mais a do século XX. Saber ler e escrever é o mínimo do mínimo, é necessário um processo educativo muito mais sofisticado, envolvendo a interação com a computação, a tecnologia de softwares e o desenvolvimento de maquinário — advertiu.

China

Em resposta a Cristovam Buarque (PPS-DF), Azevêdo chamou a atenção para a China, que no seu entender é uma nação que já vem transitando para este novo modelo.

O diplomata avalia que boa parte do mundo ainda analisa a explosão do crescimento chinês como umbilicalmente ligada à mão de obra abundante e barata, mas que isto é hoje "apenas parte da resposta, e mais ligada ao início do processo", e que hoje o país já transita decidido para uma economia baseada em alta tecnologia.

— Há um apoio governamental muito forte por trás desta nova estratégia, que merece ser estudada com profundidade, sem os mitos do passado. Os salários na China estão crescendo, tanto que boa parte da indústria mais baseada em mão de obra barata já vem optando por outras nações da Ásia — disse.

Azevêdo reconheceu que o modelo chinês é "sui generis", por misturar estratégias típicas do socialismo com o capitalismo, porém "funciona". E reconheceu que a intervenção estatal nestas estratégias de desenvolvimento também leva a muitos questionamentos em fóruns internacionais, devido ao fato de muitos países entenderem que a China provoca distorções no mercado.

Ainda sobre o país asiático, Cristovam disse preocupar-se com os investimentos chineses na produção de soja em países africanos, que poderão no futuro prejudicar fortemente as exportações brasileiras deste produto.


Fonte: Agência Senado e Assessoria de Imprensa


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